Tomo II - Alberto Savarus


Retirado de Amazon, acessado em 18/09/2024


Uma estreia na vida foi um livro um tanto surpreendente. Para quem não cria expectativas ou possui conhecimento prévio a respeito do que está por vir, resta a doce surpresa de ler uma narrativa muito bem escrita. Mas como nem tudo são flores, após a delícia que foi acompanhar um pouco da história do jovem Oscar naquela publicação, Alberto Savarus chega como um balde de água fria, completamente incapaz de causar no leitor qualquer sensação de ânimo ou excitação. Publicado em 1842 no formato de folhetim, essa personagem insossa dá título a este romance curto de 136 páginas, que provavelmente será esquecido em muito pouco tempo. 


A história se passa na pacata cidade de Besançon. Tem-se aqui, mais uma vez, aquela estrutura um tanto repetitiva das histórias de Balzac: apresentação da cidade, das personagens e, só depois, o desenvolvimento do enredo. A primeira personagem apresentada é a Baronesa de Watteville, a "mais considerável personagem feminina" da cidade. A baronesa tem uma filha, Rosália, srta de Watteville, que "aos 18 anos [...] era uma jovem débil, esguia, plana, loura, branca e insignificante ao extremo". O que todos dizem na cidade é que a srta. de Watteville se casará com o jovem Amadeu de Soulas, que é considerado o homem mais belo da cidade e só tem interesse no seu dote. 


O livro tem um teor autobiográfico muito forte e, na expectativa de afastar qualquer suspeita de que a jovem Rosália represente Evelyne Hanska, por quem Balzac era apaixonado, a introdução da jovem na história se dá por adjetivos com teor muito negativo: "insignificante ao extremo". Para desgosto do autor essa estratégia desesperada não funciona, Rosália é a personagem mais interessante do livro e, possivelmente, a única coisa da qual se pode tirar proveito na história, fazendo o leitor crer que, na realidade, é ela a real protagonista, e não Alberto. 


E para quem tem problemas de pressão, chegou o momento de fugir, pois é hora de falar da personagem sem sal e sem tempero que dá título à história: Alberto Savaron de Savarus. "Os Savaron de Savarus são uma das famílias mais velhas, mais nobres e mais ricas da Bélgica". É daí que vem Alberto, é dito que ele "não é um homem comum. Há mais de um segredo por trás daquela máscara". Para quem acha que a personagem fica interessante quando esses segredos são revelados, só resta derramar as lágrimas de arrependimento: dele nada se aproveita. 


Surge na cidade como um advogado e surpreende a todos com o seu domínio da oratória, ganhando um caso que era bem complicado. Ninguém sabe muito sobre ele, que permanece um mistério para todos. Não anda nas altas rodas da sociedade e desperta a curiosidade de todos. Chama a atenção da jovem Rosália que, por ter um gênio forte e ser muito perspicaz, quer saber quem é esse homem tão cheio de mistérios. Quando o vê pela primeira vez, ela se apaixona. 


Alberto lança uma revista e nela publica uma novela, um tipo de romance que está reproduzido em sua totalidade aqui. Uma história meio morna sem muita substância: um homem está completamente apaixonado por uma mulher, que é princesa e, sendo ele não muito rico, começa a tentar diversos negócios para fazer fortuna e desposá-la. Não bastando isso, ela ainda é casada e, enquanto ele tenta fazer fortuna, ela espera o atual marido morrer para que os amantes possam ficar unidos. 


Ao ler a história Rosália fica morta de ciúmes por acreditar, sem sombra de dúvidas, que a história é a história de Alberto: homem apaixonado por alguém, que está tentando fazer fortuna para desposá-la. "Que mulher não teria, como ela, querido saber o verdadeiro nome da sua rival, pois ela amava!". Rosália o amava e queria saber tudo da sua história. 


Rosália, depois de planejar algumas coisas, consegue uma carta de Alberto e descobre toda a sua história: ele de fato ama alguém, a princesa de Sorderini, que está na Itália, é casada e o ama também. Está esperando o marido morrer para ficar com Alberto. Alberto já tentou várias vezes fazer fortuna mas não conseguiu e, agora, tenta conseguir a confiança das pessoas em Besançon para ser eleito e conseguir um cargo político. Passou 11 anos trocando cartas com a princesa e a amando incondicionalmente e fazendo de tudo que podia para ser digno de desposá-la. O leitor se importa e fica comovido por Alberto? Não, na verdade ninguém liga muito pois a personagem não causa nenhuma simpatia. 


Rosália intercepta cartas de Alberto e da princesa. Falsifica cartas dele para ela e isso faz com que a princesa se case com outro por achar que Alberto encontrou outra mulher e a trocou. Tudo maquinado por Rosália, movida pelo desejo que se casar com o homem que amava. Alberto, após saber que a princesa se casou com outro, vira um tipo de noviço e nunca mais aparece na vida em sociedade.


No final das contas parece que acabou o romance de Balzac e se iniciou uma distopia de adolescente lançada em 2015: Rosália está em um lugar onde explode uma caldeira, perdendo o braço direito e a perna esquerda, seu rosto fica com "horríveis cicatrizes que a privaram de sua beleza", ela se isolou e ninguém mais a viu.  


Tudo que Rosália tem de interessante Alberto tem de sem graça. Alberto Savarus não parece a protagonista da história, já que aqui se acompanha as maquinações de Rosália enquanto Alberto parece uma personagem secundária. A jovem é punida com um castigo horrendo, enquanto a Alberto é dado um final que tenta causar no leitor uma sensação de pena. Como é dito na introdução à história escrita pelo Paulo Rónai, da mesma forma de Rosália agiu querendo fazer valer a sua vontade, que era estar junto de Alberto, Alberto tentou usar o povo de Besançon como degrau para que pudesse fazer fortuna e se casar com a princesa que ele amava. Não que Rosália seja uma mocinha pura e inocente, mas ao menos é interessante de acompanhar, coisa que Alberto nem chega perto. 


Modesta Mignon foi uma delícia, Uma estreia na vida foi uma delícia, Alberto Savarus vai ladeira abaixo, um livro que não chama a atenção por praticamente nada. Fora a personagem feminina, nada mais parece ser bom. Uma ficção dentro da ficção, e depois parece que lemos mais do mesmo. A história do conto que Alberto publica é a história de Alberto, da mesma forma que a história de Alberto é, de certa maneira, a história de Balzac, parece uma fanfic, que dentro tem uma fanfic e ficção e realidade se misturam. As coisas se entrelaçam, se confundem, se bagunçam e o resultado não é muito positivo. 


Alberto Savarus, se não existisse, não faria falta. 

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