Tomo I - Modesta Mignon


Ilustração de Modesta Mignon, retirado de Balzac Books, acessado em 26/03/2024

Modesta Mignon é o último livro do primeiro volume da Comédia Humana. Foi escrito em 1844, quando Balzac volta de São Petersburgo depois de um período de férias junto à Condessa Hańska, sua noiva, que escreve um rascunho que depois foi usado pelo autor para escrever este delicioso romance. O livro contém muitos traços autobiográficos, dado que a história da mocinha se assimila muito à da Condessa: ela escreveu cartas a Balzac e os dois se apaixonaram. 

Na história, a jovem Modesta Mignon escreve cartas para o seu poeta favorito, Canalis, que não dá muita importância a ela e pede para que o seu secretário, Ernesto de la Brière, as responda. Entre uma carta e outra a jovem e o secretário se apaixonam. 

O romance começa com um prefácio lindo, causando no leitor uma grande expectativa a respeito do que estaria por vir. Infelizmente nas primeiras páginas só há frustração: um começo lento e extremamente arrastado, com descrições chatas e pouco interessantes do Havre, cidade na qual a história se passa, das suas ruas, seus terrenos, da casa em que a família vive... Mas quem insiste na leitura, apesar desse começo sofrível, é recompensado: a história é deliciosa, dinâmica e com algumas reviravoltas. As personagens são interessantes, a protagonista é cativante e o enredo é maravilhoso, apesar de simples. 

A casa Mignon era riquíssima, mas perdeu a sua fortuna. O patriarca Carlos Mignon foi embora e deixou a esposa e filhas junto a Dumay, seu grande amigo, dizendo que reconquistaria a sua fortuna e voltaria, sem dizer quando. "Guarda-me minha última filha, como o faria um buldogue. Morte para quem tentasse seduzir minha segunda filha! Nada temas, nem mesmo o cadafalso;" é o pedido do pai para o amigo. Esse pedido ocorre porque a filha mais velha, Betina Carolina Mignon, se apaixonou e fugiu com um homem que só queria a sua fortuna. Depois foi descoberto que esse homem era um golpista e seria preso, então ele se exilou e a abandonou, o que a levou ao suicídio. O suicídio acontece após a partida do patriarca, de modo que ele, então, não sabe de nada. 

Depois de uma descrição chata e detalhada da casa, chega o momento de falar sobre Modesta e o narrador começa dizendo: "conhecem a gaiola; agora, aqui está o pássaro." Essa introdução da personagem dá ao leitor o cenário exato da vida dela: super vigiada e protegida por todos. Depois do que aconteceu com a irmã, todos têm medo de que o mesmo aconteça com ela. 

Ledo engano! Modesta tem seus 20 anos, é esbelta e delgada e o narrador faz questão de descrever até mesmo a cor do seu pescoço ("com uma brancura de leite"). É dito que "Modesta era a jovem curiosa e pudica, que conhece seu destino e é toda castidade". Sufocada por todos ao seu redor, se prendeu a leituras para fugir da sua própria realidade, daí seu interesse pela poesia. Ao contrário das personagens femininas anteriores, Augustina, Emília e Luísa, que são um tanto chatas e insossas, Modesta é esperta e perspicaz. Lia muitos romances na expectativa de um dia viver um deles, mas não era iludida como Augustina, queria fazer um bom casamento, mas não tinha o desespero de Emília por um homem rico. Como descrita pela mãe, "era a inocência personificada, mas uma inocência instruída". 

Após a longa apresentação do Havre, da família e do contexto no qual as personagens se encontram, a mãe de Modesta percebe que a filha está apaixonada, mas ninguém sabe por quem. Tem-se, então, um burburinho instaurado. Todos levantam várias hipóteses de possíveis pretendentes, mas não encontram nenhum que pareça ser o escolhido.

Modesta sempre gostou muito de ler romances e até "[...] quis ser companheira de um poeta, de um artista, enfim, de um homem superior à massa dos homens". E é exatamente o que acontece, ela se apaixona pelo poeta Canalis, que vive em Paris, após ver um retrato dele em uma loja e se impressionar pela sua beleza. Decide enviar uma carta e é aí que a história fica interessante. Se até então o enredo, em alguns momentos, se arrasta, a partir daqui tudo muda. 

Modesta escreve a primeira carta para o poeta, que não dá muita atenção e pede para que o seu secretário, Ernesto de La Brière, a responda para ver até onde vai a história. A troca de cartas é muito interessante de se ler, a curiosidade para saber o desenrolar da história só aumenta à medida em que novas cartas aparecem no livro. Modesta se mostra uma jovem muito esperta e hábil nas palavras ao conversar com o secretário, achando que ele é o poeta. Ernesto também é uma personagem interessante, se mostra muito nobre e cordial. Os dois se apaixonam um pelo outro apenas com a troca de cartas. Em certo momento Ernesto vai escondido ao Havre para tentar ver Modesta mas não a encontra pois o nome que ela usa para assinar as cartas é outro. 

Ilustração de Butscha, retirado de Balzac Books, acessado em 26/03/2024

Outra personagem cativante na história é o Sr. Butscha, um homem corcunda muito esperto que, antes de todos, percebe o que está acontecendo em relação à troca de cartas. Em certo ponto há um diálogo entre ele e Modesta que é muito bom, vemos toda a esperteza da mocinha se apresentando e, para surpresa de quem lê, vemos que o Sr. Butscha é ainda mais esperto que ela, entendendo os seus objetivos, que ela fazia muita questão de esconder. Modesta marcou um encontro com Ernesto na igreja, não combinaram de se falar, ele apenas apareceria e ela o veria de longe. Tudo sai de acordo com o combinado e ela o acha extremamente belo, escrevendo para ele uma carta.

"Ah! Meu amigo bem-amado! Que atrozes mentirar esses seus retratos expostos nas vitrinas dos vendedores de gravuras! [...] Estou envergonhada por amar homem tão belo. Não, não posso imaginar que as parisienses sejam tão estúpidas para não verem todas que o senhor era o sonho delas realizado." 

Entre os acontecimentos anteriores é revelado que o pai de Modesta, enfim, retornará. Envia uma carta para Dumay informando que reconquistou toda a sua antiga fortuna, e ainda mais, mas pede para que este não comente com ninguém, pois quer escolher um marido para a filha e tem receio de interesseiros. Nesta mesma carta em que Modesta diz ter achado o seu amado extremamente belo,  a mocinha releva estar completamente apaixonada por ele e informa onde o pai estará, pedindo para que Ernesto vá falar com ele. 

Ernesto se encontra com Carlos Mignon e revela toda a história. "Carlos Mignon recuou três passos, fixou em La Brière um olhar que penetrou nos olhos do rapaz, [...], e ficou silencioso ao verificar a mais completa candura, a mais pura verdade naquela fisionomia aberta, naqueles olhos encantadores". O pai então propõe que Ernesto e Canalis se apresentem no Havre por alguns dias para que Modesta possa vê-los e escolher com quem se casará. Canalis se interessa pela jovem após descobrir que o pai é rico e que o dote será, provavelmente, muito alto, pois muitos burburinhos se espalharam a respeito da fortuna do homem que regressou. 

Ao saber que foi enganada, Modesta fica muito irritada, porém aceita o pedido do pai: de ver os dois homens. Na disputa pelo coração da protagonista ainda aparece um terceiro pretendente: o duque d'Herouville, que fica tão apagado e é tão sem graça que é necessário fazer muito esforço para escrever algo sobre ele, e nem assim é possível fazê-lo, pois não há nada que o torne memorável.

No primeiro encontro dos 3 Canalis é o que passa melhor impressão, enquanto Ernesto fica silencioso e Modesta não dá atenção alguma a ele, nem mesmo o olha, pois se sentia muito enganada. Após páginas e mais páginas vendo a convivência dos 3 pretendentes e as famílias no Havre, que não é de todo desagradável de ser lida, Modesta decide se casar com Ernesto. Nada é dito sobre a sua vida conjugal, a decisão da protagonista acontece na penúltima página.

Modesta Mignon traz um frescor imenso à Comédia Humana. Depois de várias histórias de protagonistas bobinhas e ingênuas, Modesta traz um outro ar para o universo balzaquiano. Depois das primeiras páginas a leitura flui e o leitor devora o texto como se sua vida dependesse disso. Há vontade de saber como tudo termina e, quando tudo termina, há vontade de saber como tudo continua. 

Como última nota de rodapé, tem-se a informação de que nas histórias "O Deputado de Arcis" e "A prima Bete" o casal Modesta e Ernesto reaparecem, histórias que estão respectivamente nos volumes 12 e 10 da Comédia Humana. Para quem não se importa de pular a ordem e ler logo esses livros dos volumes 10 e 12, fica o frescor de saber o destino do casal, para quem quer ler os livros na ordem, fica a ansiedade para chegar logo lá. Ademais, tem-se a história mais legal até agora! 

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