Uma estreia na vida é o primeiro livro do segundo tomo da Comédia Humana. Publicado em folhetim em 1842, tem-se aqui a história do jovem Oscar e a sua estreia na vida, começando de maneira não muito agradável. Na introdução do Paulo Rónai, ele começa dizendo que
"Balzac tem tempo. Começa por expor longa, minuciosa e até pesadamente os ambientes e as circunstâncias. Seus primeiros capítulos são provas pelas quais elimina o leitor frívolo ou distraído".
E assim começa Uma Estreia na Vida (em francês, Un Début dans la Vie), com um início arrastado e enfadonho. Mas quem insiste colhe os frutos: a história é extraordinária, daquelas "que as grandes obras de Balzac condenam a um esquecimento injusto, pois ela por si só bastaria a firmar uma glória literária".
Imagem de um coucou retirado de Wikipedia, acessado em 22/05/2024
O começo de tudo se passa em um coucou, um tipo de carruagem usada para transportar pessoas. A primeira personagem apresentada é Pierrotin, o dono de uma pequena agência de transporte que está a ponto de partir levando algumas pessoas para a cidade de Presles. Dentro deste coucou ocorre algo que mudará severamente o destino do jovem Oscar Husson, protagonista desta pequena novela. No coucou vão transportados Oscar, então com seus 18 anos, o Conde de Sérisy, par da frança que viaja incógnito, outro jovem rico chamado Jorge, Mistigris e seu acompanhante, que se apresenta como Schinner mas é José Bridau, e Léger, um granjeiro rico.
O Conde de Sérisy é um par da frança e viaja para Presles sem se revelar, pois lhe foi dito que o administrador da sua propriedade de lá, o Sr. Moreau, o estava roubando. Moreau e sua esposa tinham como inimigos o Sr. de Reybert e sua esposa. Esta segunda fez uma visita ao conde em Paris para revelar que Moreau e Léger o estão enganando. O motivo da revelação é que o Sr de Reybert quer se o administrador da propriedade do conde, por isso conta tudo para tentar tomar o lugar de Moreau.
O jovem Jorge não é ninguém de muita importância, mas é rico pois recebeu uma herança. É bem vestido e passa ares de pessoa nobre. No coucou conta histórias mirabolantes de grandes aventuras que supostamente viveu na Grécia e África, todas inventadas, apenas com o objetivo de se mostrar uma pessoa de destaque.
O falso Schinner, que também vai no coucou, na verdade é José Bridau e recebe uma nota de rodapé exclusiva para ele mesmo. É dito que é uma personagem que figura em diversos romances da Comédia Humana. Já apareceu em A Bolsa, ilustra livros de Canalis em Modesta Mignon bem como aparece no casamento de Luísa de Chaulieu em Memórias de Duas Jovens Esposas.
Oscar é a protagonista aqui. "Oscar era todo o futuro, toda a vida de sua mãe, só se podia censurar àquela pobre mulher o exagero de sua ternura por aquela criança". A mãe era muito rica mas perdeu tudo, recebia muita ajuda do Sr. Moreau. Oscar vinha de uma família pobre mas era cheio de vaidades, tinha uma "presunção" e um "estúpido amor-próprio". Nasceu na casa da mãe do imperador, onde a mãe dele trabalhava, e desde a primeira infância "seus olhos foram deslumbrados pelos esplendores imperiais".
De início Oscar é antipático e nada carismático. Oscar não "é nada" e não tem "nada a contar", por isso fica "arrebentado de raiva" no coucou diante das outras personagens que contam histórias mirabolantes de grandes feitos (Jorge inventando várias coisas e o falso Schinner falando sobre suas artes). Não seguindo o conselho da sua mãe, que lhe diz que "nas diligências, as pessoas corretas ficam caladas" e guiado pelo sentimento de ódio e inveja (principalmente de Jorge, após este inventar histórias), começa a falar de segredos do Conde de Sérisy, sem saber que este é o homem desconhecido que viaja ao seu lado. Segredos estes que lhe foram revelados pelo Sr Moreau em algumas das visitas à casa da sua mãe. Fala das suas doenças de pele e do quanto ele é desprezado pela esposa, o que causa a ira do conde.
No meio da viagem, em um das paradas, o conde escuta Léger contando a um hoteleiro do seu plano de passar a perna nele. Pouco antes do destino final o conde desce e todos seguem viajem.
Ao chegarem a Presles todos ficam estupefatos ao receberem a notícia de que o conde chegou e se perguntam como. A única conclusão possível é: o conde é o homem desconhecido que os acompanhava no coucou. Todos ficam em polvorosa pois inventaram histórias absurdas e serão desmascarados. Oscar é o que fica pior, pois revelou muitas coisas e ridicularizou o conde na frente dele mesmo.
O motivo da viagem de Oscar a Presles é conseguir alguma ajuda de Moreau para garantir o seu futuro. No meio de toda a confusão, Moreau é demitido e Oscar perde aquele que seria o seu único protetor. Sem perspectiva nenhuma a respeito do futuro do filho, a mãe o aconselha a irem procurar o Tio Cardot, que se oferece para pagar os seus estudos em direito. Moreau, apesar de irado por ter perdido tudo por culpa de Oscar, também o ajuda o indicando para trabalhar com um procurador, chamado Sr. Desroches.
Desroches mantinham um escritório com regras extremamente rígidas, e, a respeito da vida de Oscar em Paris trabalhando com ele, é dito que "se assemelhava à de um monge". Acompanha-se, nesse contexto, uma aparente mudança de caráter em Oscar. 2 anos depois é o terceiro ajudante no escritório e vai muito bem nos estudos. "Não ganhava nada, era alimentado, alojado pois fazia o trabalho de um segundo escriturário". Porém essa mudança é apenas na aparência, o jovem Oscar continua tão orgulhoso e vaidoso quanto sempre fora.
Apesar de no início ser apresentado como uma personagem em nada carismática, neste ponto da história o leitor até torce para que Oscar tenha sucesso e esteja mudado, quase surgindo em nós um sentimento de orgulho e apego ao jovem. Parece dedicado e segue a vida extremamente regrada do escritório de maneira exemplar. Porém o gosto da decepção (para o leitor) é um tanto quanto amargo.
Em um certo ponto Jorge reaparece na história, pois o seu irmão também trabalha com o sr. Desroches. O sr Desroches dá a Oscar 500 francos para que possa ir até o Palácio de Justiça no dia seguinte resolver algumas coisas, porém, nesta noite haverá uma festa dada por Jorge e Oscar foi convidado. Na festa, regada a álcool, mulheres e jogos de azar, Oscar perde todo o dinheiro e, no dia seguinte, por causa do efeito da bebida, acorda muito depois da hora do trabalho (deveria ir ao Palácio de Justiça às 07h, mas acorda apenas às 11h). Na verdade ele é acordado pelo Tio Cardot, que se envolve com uma jovem que supostamente se prostitui. Cegado de ódio pelo sobrinho, o tio cancela a ajuda que dava a ele e Oscar se vê, mais uma vez, sem rumo na vida.
O gosto da decepção do leitor só não é mais amargo pois ao longo de todos os acontecimentos na festa e nos jogos de azar o narrador enfatiza que o jovem se dava conta de que não deveria estar participando de tudo aquilo, porém para não ter o orgulho ferido se deixava levar. Sempre preocupado com as aparências e com o modo como a sociedade o via, Oscar acaba sendo imaturo e irresponsável, ao invés de fazer o que seria o correto, guiado apenas pela sua excessiva vaidade.
No final das contas só resta a ele a carreira no serviço militar, onde ele faz grandes feitos e ganha diversas honrarias. Por ironia do destino, é mais uma vez ajudado por Moreau, e acaba trabalhando no grupo comandado pelo filho do conde de Sérisy. Em uma certa batalha, o filho do conde quase morre e Oscar o salva (perdendo um braço no processo), o que rende a ele a gratidão do conde.
Na cena final, que se passa 14 anos depois da cena inicial, também em um coucou, tem-se uma atualização da situação de vida de quase todas as personagens. Moreau virou um deputado famoso, Pierrotin virou um burguês, Léger continua rico, José Bridau segue bem de vida, Jorge perdeu tudo e parece estar vivendo em estado de "real miséria", além de muito mal cuidado e feio. Oscar mudou muito ao longo dos 14 anos e ninguém o reconhece, até que ele se apresenta.
Interessante que, nesta cena, Oscar e a mãe estão no carro e o jovem segue extremamente quieto, não se interessando em falar nada. Uma personalidade completamente oposta àquela do início, que o levou à sua ruína ao falar mais do que deveria.
Segue no carro também Canalis, um dos pretendentes de Modesta Mignhon, 10 anos mais velho, e sendo chamado de barão. Se casou com a filha de Moreau, uma mulher muito rica.
Uma das coisas mais interessantes em Uma Estreia na Vida é que se trata essencialmente de um pequeno romance de formação. Ao contrário das histórias anteriores aqui não se tem uma história de amor, de pretendentes querendo conquistar a mocinha ou de uma jovem à procura de um bom marido. É um gosto muito diferente em relação a tudo que foi lido até então. Aqui Balzac mostra uma das faces pela qual ficou conhecido, o de "historiador dos costumes".
A história começa devagar, mas depois prende o leitor. Os acontecimentos não se arrastam, acontecem um atrás do outro. O modo como tudo é contado é cativante. Uma Estreia na Vida é uma narrativa maravilhosa e faz por merecer todos os elogios a ela dados: "ela por si só bastaria a firmar uma glória literária".


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