A Bolsa (La Bourse, em francês) foi publicado em 1832. Com pouco mais de 30 páginas, na edição da editora Globo organizada pelo Paulo Rónai, é uma história bem curta e de rápida leitura. Ao contrário das outras, o texto parece não ter terminado de ser escrito, ficando, ao final, muitas perguntas em aberto. A última cena é completamente perdida no livro e não dá pra entender direito o que está acontecendo, fica a impressão de que a história ainda vai ser finalizada, o que não acontece.
Hipólito Schinner é a personagem principal dessa pequena história que ainda se passa no ambiente artístico de Paris. Um artista com talento muito reconhecido no meio em que circulava, vem de uma família de origem humilde e foi criado apenas pela mãe, que se esforçou muito para que ele tivesse algum reconhecimento enquanto pintor, coisa que ele alcança sem muita dificuldade, dado que possui um talento extraordinário desde criança.
Logo no primeiro parágrafo do livro tem-se uma descrição muito bonita e muito bem escrita de um momento que, pela descrição, é logo antes do anoitecer, enquanto o sol se põe e a noite chega e o dia se vai.
"Existe para as almas, facilmente expansivas, uma hora deliciosa que sobrevém no instante indeciso, em que ainda não é noite, mas em que já não é dia; a penumbra crepuscular projeta suas tintas imprecisas, ou seus estranhos reflexos, sobre todos os objetos, favorecendo um devaneio que se combina vagamente com os efeitos da luz e da sombra. O silêncio, que quase sempre reina nesse momento, torna-o mais particularmente caro aos artistas que se concentram, se colocam a alguns passos de suas obras, nas quais não podem mais trabalhar e as julgam, embriagando-se com o assunto cujo sentido íntimo se revela então aos olhos interiores do gênio. Aquele que não permaneceu pensativo, junto a um amigo, durante esse momento de sonhos poéticos, dificilmente compreenderá seus indizíveis benefícios. "
Hipólito está em seu ateliê pintando algo e então cai e bate a cabeça num manequim. Duas vizinhas ouvem um barulho e sobem até onde ele está para saber o que aconteceu. O veem caído e o ajudam, perguntando se ele está bem e se se machucou. O jovem acorda e se depara com duas mulheres, uma jovem extremamente bela e uma senhora, aparentemente mãe da jovem. A jovem chama-se Adelaide e, a princípio, não é revelado o nome da senhora. Ao longo das páginas seguintes tem-se um tipo de mistério com o nome dela. Sabe-se apenas que usa um sobrenome diferente do da filha.
Após esse caso Hipólito vai para a sua casa (na rua Champs-Elysées) e fica pensando sobre as duas mulheres que o ajudaram, sobretudo na jovem.
Em dado momento ele visita às mulheres e repara, pelo apartamento delas, que são pobres. "O pintor estava profundamente preocupado com aquela miséria oculta". Isso se dá pelo fato de Hipólito reparar na semelhança da vida daquelas mulheres com a sua própria vida antes da sua fama. Para continuar em contato com essa família e com as duas mulheres ele se oferece para pintar um quadro que vê desbotado na parede, uma pintura do marido da senhora mais velha.
Hipólito também repara que aquelas duas mulheres sempre recebem visitas de 2 homens todos os dias e que esses 2 sujeitos permanecem ali até bem tarde da noite. Hipólito começa a ter pensamentos inquietantes a respeito do que esses dois homens ficam fazendo ali até tarde e, ao mesmo tempo, também se pergunta como elas conseguem sobreviver, onde conseguem dinheiro para se manterem. Ao final descobre-se apenas que um dos homens é o Conde de Kergarouet, que já apareceu na novela anterior, O Baile de Sceaux, e que ele ajuda a família com algum dinheiro apostando com a mulher mais velha e perdendo de propósito apenas para ajudar a família a se manter de alguma forma.
O texto começa interessante e já deixa o leitor com a expectativa de que algo muito incrível está por vir. Balzac mostrou esse poder nas histórias anteriores. Sabe exatamente como criar uma trama interessante do começo ao fim nos ambientes artísticos parisienses, sobretudo entre duas personagens femininas que permanecem misteriosas até o final. Infelizmente esse "algo incrível" não chega nunca, pelo contrário, a história se perde tanto que paira na mente do leitor a pergunta "o que está acontecendo?" pois não dá pra entender que rumos tudo pretende tomar.
Ao terminar o texto fica aquela impressão de tempo perdido. Parece mais um rascunho do que uma história com começo, meio e fim. Final? Não há. A última cena é extremamente aleatória e um tanto sem sentido. O que aconteceu ali, afinal de contas? O que significa a fala da mulher mais velha quando diz "parece que hoje estamos em família"? Nada tem sentido, a história não se completa, os laços abertos continuam abertos e o desfecho da história simplesmente não chega.
Os outros textos da Comédia Humana lidos até o momento foram muito interessantes ("Ao Chat-Qui-Pelot", "O Baile de Sceaux" e "Memórias de Duas Jovens Esposas"), mas "A Bolsa" poderia ter ficado de fora pois não tem nada para acrescentar.
A história é tão pobre que nem dá vontade de escrever algo sobre.



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