Visão de uma ponte na cidade de Blois, França, na qual se encontra o convento em que as amigas Renata e Luísa se conheceram. Imagem disponível em https://pixabay.com/pt/photos/fran%c3%a7a-blois-loire-ponte-barco-4667834/ acessado em 16/06/2021
Em 1841 é publicado o romance epistolar Memórias de Duas Jovens Esposas (em francês "Mémoires de deux jeunes mariées") em forma de folhetim no jornal francês La Presse. É o único romance epistolar da Comédia Humana, ou seja, escrito em forma de cartas trocadas entre duas amigas: Luísa de Chaulieu e Renata Maucombe (tradução dos nomes Louise e Renée, respectivamente, da edição brasileira organizada por Paulo Rónai). Luísa e Renata se conheceram em um convento na cidade de Blois, e o romance começa logo após a saída das duas deste lugar pois Luísa vai viver em Paris com a família e Renata vai para a cidade de Provença. Para manter contato, as amigas trocam cartas, que compõem a história.
Luísa é uma jovem de boa família que recebeu uma grande herança da avó, a princesa de Vaurémont, que a proibiu de professar para poder ficar com a herança, por esse motivo ela sai do convento. Renata, ao contrário, não vem de uma família rica e sai do convento para se casar com o filho de um vizinho da família que está voltando depois de ter sido mandado para o exército de Napoleão. Luísa vive em um mundo de fantasias, anseia viver um amor daqueles que só existem nos romances, completamente distante da vida real, e fica chocada ao saber que Renata se casará com um homem que não ama, e que sequer conhece direito.
Renata, ao contrário da sua amiga, é mais realista e menos idealizadora. Apesar de não amar o homem com quem vai se casar faz poucos planos e deseja apenas ter uma vida tranquila. Ao longo da história acompanhamos a vida de Renata acontecendo sem grandes emoções mas também sem turbulências ou crises. Se torna mãe e fica extremamente feliz com a vida familiar. Em vários momentos descreve a relação com os filhos e com o marido como sendo muito positiva, mesmo nunca dizendo amar o homem com quem se casou.
Luísa escreve muito mais cartas que Renata. Temos mais detalhes da sua vida do que da vida da amiga. Luísa, no início do romance, conta um pouco da sua rotina e da relação com a família, que praticamente não se reúne e malmente se veem (o que se resume ao horário do almoço). Luísa cria grandes expectativas até mesmo ao sair pela primeira vez pelas ruas de Paris, achando que seria muito admirada, o que não ocorre e a frustra.
"Não recolhi o menor sorriso, não fiz nenhum pobre rapazinho ficar boquiaberto, ninguém se virou para me ver e, contudo, o carro ia numa lentidão em harmonia com a minha atitude. [...] Eu estava ferida. [...] a beleza, esse raro privilégio que somente Deus dá, é mais comum em Paris do que eu pensava."
Ao longo da história Luísa vive dois romances, não se sentindo completamente feliz em nenhum deles. Primeiro se apaixona pelo seu professor de espanhol, que depois descobre ser um nobre, o Barão de Macumer, que foi banido da Espanha. A princípio ela não gosta dele, o acha feio e estranho, mas logo desenvolve um sentimento e se casam e vivem bem por um tempo, quando Luísa começa a se sentir infeliz. Em dado momento Macumer morre e a deixa viúva.
No seu segundo romance Luísa se apaixona perdidamente por um jovem poeta e dramaturgo, Maria-Gastão, vários anos mais jovem que ela. Ele a cortejou por um longo tempo até conquistá-la. É interessante como a diferença de idade entre eles (o fato da mulher ser a mais velha) é colocada como algo negativo e chega a ser chamado de "fonte de desgraça" pela personagem. Devido aos ciúmes excessivos, Luísa se muda com Maria-Gastão para uma pequena vila nos arredores de Paris com a intenção de se isolar do resto da sociedade.
Alguns anos após se mudarem Luísa percebe algum tipo de mudança no seu marido e imagina que ele possua uma amante pois este começa a se preocupar com o sucesso financeiro de suas peças. Descobre que ele está em Paris com uma mulher, esta possui filhos que se parecem muito com ele. Concluindo que aquela mulher é a amante do marido e lhe deu filhos que ela mesma não pôde dar, Luísa fica gravemente doente e acaba morrendo antes de descobrir a real história.
Renata envia a Luísa uma carta explicando que a suposta amante de Maria-Gastão na realidade é sua cunhada, mulher do seu irmão que morreu e a deixou sem nada e sozinha com os filhos para criar. Maria-Gastão a estava ajudando todo esse tempo. Porém a carta de Renata chega para Luísa tarde demais.
Em mais uma história muito interessante Balzac traz para o leitor a temática do amor e do romantismo. É possível ser feliz se entregando a um amor idealizado ou apenas abrindo mão de viver uma paixão ardente em prol de objetivos mais pragmáticos (como os de Renata)? Não existem respostas simples para esse tipo de pergunta. Os sentimentos humanos são muito complexos e a vida inserida na coletividade torna tudo ainda mais delicado. Como formar um bom casamento e ter uma vida feliz? Renata conseguiu alcançar esse objetivo se casando com um homem que não amava e tendo filhos que tornaram sua vida cheia de alegria. Luísa viveu a paixão ardente duas vezes e teve um final amargo em ambas.
Não dá fazer afirmações simples sobre a complexa psicologia humana, mas é necessário levar em conta que idealizações são apenas isso: algo distante da realidade concreta. As expectativas das personagens idealizadoras de Balzac as levaram a finais infelizes e até trágicos. Primeiro Augustina de Ao 'Chat-Qui-Pelote' e agora Luísa, duas personagens extremamente sonhadoras com destinos muito parecidos.

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