Ilustração da Maison Du Chat-Qui-Pelote feita por Édouard Toudouze. Imagem retirada de Illustrations from La maison du chat qui pelote. Acessado em 06/11/2020
Ao "Chat-Qui-Pelote" é o primeiro livro da Comédia Humana, escrito por Honoré de Balzac em 1829, inicialmente com o nome Glória e Desgraça (em francês "Gloire et Malheur"), e veio a público em 1930. Foi reeditado e revisado 4 vezes até ter a sua versão definitiva publicada em 1842 com o título atual (no original em francês "La Maison Du Chat-Qui-Pelote"). Faz parte do bloco Cenas Da Vida privada, que está contido em um bloco maior chamado Estudos de Costumes. No livro, acompanha-se a história de Augustina, uma jovem de uma família de comerciantes que passa pela glória e pela desgraça do seu casamento com o artista Teodoro de Sommervieux.
Nas primeiras páginas tem-se uma descrição detalhada, e às vezes bem cansativa, da Rue Saint-Denis, em Paris. Acompanha-se um estranho viajante, que futuramente na história descobriremos tratar-se de Teodoro de Sommervieux, que olha com muita atenção para o Chat-Qui-Pelote, uma loja que possui em sua fachada uma pintura de um gato de rabo gigante segurando uma raquete e jogando algum jogo com um ser humano. Esse estranho se atenta, sobretudo, para a casa acima da loja, que, de uma janela, se vê uma jovem que, aparentemente, acabou de acordar, e se encanta com ela. Essa loja pertence à família Guillaume, e a história gira em torno da filha mais nova, Augustina, que é a moça que aparece na janela.
Ilustração da Rue Saint Denis, em Paris. Imagem retirada do artigo La Maison Du Chat-Qui-Pelote da Wikipedia. Acessado em 06/11/2020
Foto da Rue Saint Denis, em Paris. Imagem retirada do artigo VÁRIOS OUTROS ARRONDISSEMENTS. Acessado em 06/11/2020
A família é composta pelos Sr. Guillaume e Sra. Guillaume e suas duas filhas, Virgínia, a mais velha, e Augustina, a mais nova e mais graciosa. Há também os 3 funcionários dessa loja que são praticamente membros da família. Após descrever a loja o narrador descreve também o Sr. Guillaume e a sua relação com os negócios, além das suas características de um homem típico de uma sociedade tradicional e burguesa. Fica clara a sua imagem de homem preocupado com as finanças, com a loja, com as filhas e pouco com outras coisas da vida. Ele leva tão à sério os negócios da família que os funcionários são vistos como membros desta, tanto que, em determinado momento, ele dará a filha mais velha para se casar com um deles (mesmo com o funcionário querendo se casar com Augustina, o pai se nega a deixar a filha mais nova se casar antes da mais velha). Para além da parte cômica e humorística desta cena, que é muito divertida, dado que o funcionário pensava que se casaria com a mais nova e se enrola um pouco ali, é exposto de maneira muito clara para o leitor que o pai vê o casamento da filha apenas como mais um negócio, sem se importar se ela sente algo pelo funcionário ou não, dando prioridade à continuidade da loja e não ao romance.
Augustina quebra completamente isso e desafia a sua classe social e a sua família ao decidir se casar por amor, e não apenas por um objetivo mercadológico. Se apaixona pelo artista Teodoro de Sommervieux e com a ajuda de uma prima consegue convencer os pais a permitirem o casamento, o que acontece logo após descobrirem que o pretendente da filha é um homem rico e que circula entre as famílias nobres e a elite da sociedade (a prima traz essa informação). A leitura até essa parte do livro é incrível. A impressão que fica é que, quanto mais você lê, mais fácil a leitura se torna. O início é lento e cheio de descrições longas e que, apesar de serem um pouco cansativas, dão ao leitor um retrato incrivelmente palpável não apenas da rua e da loja, mas principalmente da família e das suas relações pessoais.
Augustina se casa com esse homem rico, pertencente a uma outra classe social e vive um casamento muito feliz durante os dois primeiros anos. Após isso começam os entraves de uma relação entre duas pessoas de classes sociais diferentes, com costumes e modos de vida e de origens muito distintas. Como bem sintetiza o Paulo Rónai na introdução a essa história da edição do selo Biblioteca Azul da editora Globo, "o choque de dois ambientes sociais dentro da história de um amor". Nas reuniões com as famílias nobres e membros da elite Augustina fica sem saber o que fazer por não se encaixar naqueles espaços, por vir de uma família de comerciantes, enquanto o De Sommervieux vive aquilo tudo com muita naturalidade, já que isso sempre fez parte de quem ele é ele sempre circulou por aquele meio. O casamento começa a sofrer com esse choque de classes até decair completamente.
Na segunda metade da história a leitura se torna voraz. O leitor quer saber o que vai acontecer, o que se dará com o casamento e como Augustina vai lidar com tudo o que está acontecendo. A infelicidade de um marido indiferente a ela, a frustração de ver todas as suas tentativas de salvar o casamento dando errado, as noites em que o marido passa fora e ela não sabe onde ele está, tudo isso contado de maneira extremamente clara e rápida e instigante. Augustina tenta fazer parte do meio do marido mas não se encaixa. Tenta ler livros para conseguir falar das mesmas coisas que eles mas não consegue. Todas as suas tentativas são vãs. Virgínia, a irmã mais velha, ao contrário de Augustina, tem um casamento muito tranquilo e cuida da loja com o marido.
A única coisa que deixa a desejar nessa história é exatamente o seu final. Augustina tem um final trágico (o título inicial Glória e Desgraça se enquadra muito bem na história), paga o preço por tentar sair da sua bolha social, de pessoas com os mesmos hábitos e visão de mundo que ela, e viver e aproveitar dos sentimentos da vida, por ir contra aquilo que todos sempre esperavam dela. Porém esse final é contado de maneira extremamente acelerada, nas duas últimas páginas do livro. A correria não justificada quebra um pouco de toda a magia construída ao longo da leitura. Balzac poderia ter escrito umas 10 páginas a mais e fazer a história ser ainda mais incrível.
Iniciar a Comédia Humana com uma novela curta de 64 páginas com uma história tão cativante não poderia ter sido melhor.



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